Li por aí...

Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
E escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites no meu breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar teus lábios nos meus para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
São meu jeito mais secreto de calar.

Lia Luft

Dançar a saudade, arde.


No armário, em meio a uma montanha de roupas, aquele moletom vermelho.
Feio de doer, ainda tem o cheiro dele. 
Ódio, amor por aquele cheiro. Detalhe intrigante.
Pessoa que não usa perfume, tem cheiro de corpo, de pele. 
Inconfundível. 
Deu de ombros, mais uma vez, para aquela saudade que não devia ter.

No salão, a musica mexe todo seu corpo e sua alma não ferve.
Desbaratinar o pensamento, o cheiro da memória dos movimentos dos corpos, perfeitamente simétricos.  Missão impossível em um clássico : "Abril despedaçado." 
Intimidade absurda da aproximação, sintonia vertical de satisfação plena eram os sinais simples e obvios do que a marcaria para sempre.

Espera pelo dia em que terá de volta a posse do seu próprio corpo, boca, movimentos e de sua dança. Enquanto isso, disfarça, ama, dança, arde e não ferve.

Já passou o Carnaval

Peço para que as lembranças se dissipem, para que eu não sinta suas marcas no meu corpo e na minha alma.
Peço todos os dias. Uns dias mais e outros mais ainda.

Texto não terminado.


Ela nunca mais seria a mesma.
Era deliciosamente intrigante ser o vício de alguém.
Seu cheiro ,seu gosto, seu riso e texturas. Vício de alguém.
Na brincadeira de pertencer perdeu a posse de seu corpo.
Em qualquer lugar a apertava contra o corpo, beliscava seus seios e atravessava os dedos entre as pernas e sussurrava em seu ouvido a vontade que tinha de bebe-la.  
Ela disfarçava e olhava para os lados sorrindo enquanto sentia o corpo inteiro contrair. 
Pela cintura a levava no ritmo da música, olhos nos olhos, ela o comeria ali. Mas não. 
No caminho de volta, mão para todo lado, boca e línguas e lábios num farol fechado.
Descem do carro em silêncio, já é madrugada, enquanto abre o portão uma encouchada. Ela suspira e tem a boca tapada. Contra parede, tensa, preocupada, lambidas dos seios mordidas na barriga e a saia levantada. 
Esfrega nariz, queixo, bochecha e testa. 

Espaço entre dois pontos


                                         O planeta não era muito observador.  
                         A verdade é que com tantas coisas acontecendo no seu núcleo e na sua superfície, sentia grande dificuldade de prestar atenção em detalhes.
                       A estrela, por sua vez, observadora nata, havia se encantado pela beleza daquele planeta: suas cores, texturas, movimentos, acidentes geográficos e até os climáticos eram admirados.               
                     Tornou- se especialmente curiosa sobre aquele ninho em que tantos se aconchegam e desejava encontrar morada por lá também.
                              As outras estrelas caçoavam daquela idéia maluca de se apaixonar por alguém há 6 anos-luz de distância, mas todos os dias quando o manto escuro forrava o céu, ela  desesperadamente, brilhava.
                              Numa manhã já triste e quase sem hidrogênio, chorava apagada quando escutou uma trovoada que lhe deixou toda emocionada. 
                          Desde então, trocavam juras de amor através de piscadas, cometas, trovoadas e belos arco-íris. 
                           Sentiam-se profundamente ligados, felizes e satisfeitos.  
                         O espaço entre dois pontos pode ser medido em quilômetros, desapego, cumplicidade, desafeto, saudade, léguas, hostilidade, compreensão, repulsa, milhas, cuidado.  
                           A proximidade entre o verdadeiro e o intenso deve ser inversamente proporcional ao intervalo entre o ludibrio e a fraqueza.  
                         Até hoje não sei como se conta o desfecho desta história de amor.
                         Apenas sei que ela existiu e que enormes espaços existentes entre as estrelas e planetas são,ainda, medidos a velocidade da luz.
                               Não importa quantos hectômetros, milímetros, jardas ou pés te separe de quem você ama.
                           Não economize,preencha com ternura, lealdade, estima, sintonia, humor e sensibilidade.
                            Mais rápida que a velocidade da luz, é a intensidade da energia que flui entre duas pessoas que se amam. 
( O mundo de Débinha)

Aquilo que se chama metade


E aquela moça que era inteira vinha se acostumando com as metades
meio café, meio sorvete, meia cama, meio tempo,
travesseiro, ligação, olhar,
toque, sorriso, meio beijo e até meio chiclé!
E foi ficando pela metade...
meio brilhante, meio feliz, meio atraente, meio cheirosa,
meio interessante, meio bonita.... 
Até que um dia não pode suportar: se sentia, agora, menos que uma metade.
Enquanto ele a esperava no bar da frente, se banhou, se vestiu,
se maquiou  e parada em frente ao espelho, sorriu.
Estava tudo no lugar, a pele, o cabelo, os olhos e seus cilíos pretos.
Ela que sabia combinar como ninguém, percebeu somente agora que não combinava com metades
e achou, no mínimo deselegante, o meio.
Reparou no brilho que tinha nos olhos e gargalhou alto: que bobagem!
Esvaziou-se facilmente daquilo que já nem se podia chamar de metade, com alívio.
Interessante, atrente, bonita e cheirosa como nunca tinha deixado de ser.Vestiu sua camisola mais bonita, se tocou e satisfeita dormiu.
( O mundo de Débinha)

O Jardineiro

Jardineiro

Flor delicada merecia morada mas, 
no entanto ao relento foi deixada.
Colorida pelo amor inocente que sentia,
Sofria.

Sob vento, chuva e temporal
O frio a cortava e o
jardineiro,nem se quer a olhava.
Ela era forte, acreditava.
Se mantinha aberta
num esforço enorme
de seduzi-lo
com suas cores
e cheiro.

Agarrava fortemente
suas raízes na terra,
naquela tortura
que conhecia como amor

Sentindo-se feia
já seca e sem cor,
adoeceu e maldisse aquela dor.
Fechou-se e prometeu
Nunca mais se doar pro amor.

Por ali passava novamente aquele senhor
e como sempre, ela não notou.
Assustado com o que via, não suportou.
Com delicadeza a tirou da terra
e num vasinho colorido a plantou.

Colocou adubo,
regou e segurando-a
em suas mãos, para sua
casa a levou.

Em cima da mesinha
bem pertinho da janela
era iluminada pelas
melhores horas do sol.
Não sentia frio
Não fazia esforço
Percebia o movimento,
desconfiada, e entre
pétalas ainda fechadas.

Alegrava-se com
as canções que soavam pela casa.
Se deliciava quando ele a regava
e descobria palavras doces
que ele declamava.

Através do vidro
muitos assistiam,
com expectativa,
seu caule já verdinho
contrastando com o
delicado vasinho.

Uns a cobiçavam e
as outras flores a invejavam,
enquanto ele a admirava sem cansar.
Assustada e ainda fechada
possuía um desejo enorme
de se abrir,
enfim retribuir com sua cor,
mas não sabia se o amava
pois não sentia dor. 

(O mundo de Débinha)

Flor&Ser

Simples seria a vida
se nos descobríssemos
Flor
a tempo de lembrar
como replantar-nos.
Avesso do esforço,
a paciência.
Mantém as raízes
intactas,
fortes que
voltam a gerar
frutos saborosos.
Ao seu momento.

(O mundo de Débinha)

Explorem-se

Eu cresci em uma família com apenas homens, e durante grande parte da minha adolescência, me tornei mais um na turma de meninos. Não era poupada de nenhum detalhe das estripulias sexuais, nem de irmão, nem de primos e nem de amigos da turma. Tudo era contado e falado na minha frente, sem pudor. Adicionando  a este fato, a história desastrosa dos meus pais, com certeza fiquei por um bom tempo , com um grande receio dos homens e dos relacionamen-tos em geral. Na maioria das vezes o sexo, que me contavam, parecia tão sujo que me perguntava se as meninas com quem eles andavam sentiam prazer ou se eram condicionadas a achar legal, bacana e dizer que sentiam prazer. 
Não entrei em pânico por que entre ele, havia um com uma postura sensível e diferente.
Este se apaixonava, falava do seu sentimento, sofria e ainda repetia diversas vezes que de nada adiantava ele sair e ficar com um monte de meninas que não queriam dizer absolutamente nada para ele.  
A partir daí, obviamente, minha intenção era achar entre tantos "sem vergonhas", um que prestasse!  
Deixando a almejada fidelidade e a parte afetiva de lado, gosto de analisar a iniciação sexual do menino, da menina e como ocorrem de maneira completamente diferente interferindo, indiscutivelmente, na consolidação de um relacionamento maduro e duradouro na vida adulta. Existe sim o fato de que os meninos desde sempre tem mais contato com seu pipi, para lavar, para fazer xixi, e por se tratar de um "aparelho" externo esta sempre ali, em contato com o universo. Mas a diferença que é tratada a descoberta na adolescência, ainda é muito machista. Enquanto adolescente já era obvio para mim e para qualquer pessoa da casa que não se entrava no quarto de um irmão sem bater, ou no banheiro enquanto ele tivesse tomando banho. Chega certa idade que é claro para todos da família que aquele meninão está lá brincando e se conhecendo, mas não é tão obvio assim o contrário e por isso poucas explorações realmente acontecem naturalmente para as meninas, e quando acontece é tudo feito no escuro, embaixo de uma coberta e muitas vezes com a terrível sensação do pecado ou do levianismo. Raríssimas meninas conseguem realmente conhecer seus corpos antes dos 18 anos, isso sendo bem positiva. As meninas crescem sem falar de sexo, prazer, as poucas que se aventuram são consideradas vulgares, "galinhas" e é bem verdade que de acordo com muitos relatos, quase nenhuma vivenciam e se aprofundam no seu próprio prazer, já que os meninos por sua vez são educados para seu próprio prazer e mal sabem lidar com a complexidade do prazer feminino e seus corpos cheios de segredos, e pontos erógenos. Grande parte dos meninos acreditam por muito tempo que o grande lance é a penetração e o tempo que conseguem ficar ali no "põe e tira" e muitos deles vão se tornar adultos e pouco vão evoluir. Por sua vez a menina vai se relacionando, e pouco consegue ajudar o inexperiente menino pois nem ela sabe o caminho das pedras, e nem sabe exatamente o que esperar do sexo, e como é sentir prazer. A dúvida do que fazer, como melhorar e se dá para melhorar fica permanentemente martelando suas cabecinhas, apesar de ser tudo gostosinho o corpo pede mais como se faltasse alguma coisa, e realmente pede.  Conforme vão crescendo a necessidade de falar sobre as experiências, e compará-las e saber se há mais para ser descoberto fica latente, e é só no final da adolescência que a menina consegue conversar com alguma amiga mais próxima sobre o assunto, coisa que o menino faz desde os 10 anos de idade.
Pouco tempo depois o sexo é assunto principal em 8 das 10 rodinhas de mulheres, e são elas também as que mais conversam sobre experiências reais, buscam e  leêm intensamente sobre dar e sentir prazer, e é nessas rodas de conversas que busquei inspiração para escrever sobre o assunto, principalmente por que sempre que eu venho com um assunto, link, matéria, video, brinquedo novo em uma conversa, o que mais ouço falar é:- Como eu queria que ele lesse isso!!!- Ai se os homens soubessem disso!!
- Será que ele vai ficar chateado se eu mandar esse link para ele?  Há alguns dias curti uma matéria de um site que eu adoro ( www.casalsemvergonha.com.br ), e que praticamente todas as minhas amigas lêem e repetem as frases acima, e ficou publicado no meu mural  aqui no facebook e imediatamente choveram mensagens inbox, de exatamente 13 meninas diferentes, amigas e conhecidas dizendo: Como é verdade isso!! Esse site é ótimo né? Queria que meu marido lesse aquela materia tal?... enfim foram 13 mensagens (inbox) esboçando praticamente o mesmo desejo. Sim, sua mulher, sua esposa, namorada, ficante, chuchuzinho, favinho de mel : lê, pesquisa, conversa e quer saber muito mais sobre sexo e o prazer dela ,do que você imagina.  
Com certeza ela adora aquela sua pagada selvagem, suas preliminares e também a rapidinha, mas daria pulos de alegria se você soubesse que uma sessão de carinho gratuito e provocativo em toda extensão do seu corpo, com unhas, respiração e ou até um simples pincel de blush, iria deixá-la toda arrepiada e a ponto de bala! E facilmente essa devoção de alguns minutos a deixaria muito mais segura para realizar as suas mais loucas fantasias, que adivinha? Ela também tem!  Provavelmente o amorzinho da sua vida, já quis que você lesse uma matéria sobre sexo umas 15 vezes nos últimos 12 meses que estiveram juntos! E adoraria um passeio ou um presentinho de um sex-shop. Por fim é sempre bom deixar claro que se tratando de sexo e de amor, ninguém doa sem querer nada em troca. Neste caso é dando que se recebe. Se ela é carinhosa, se beija seu corpo dos pés a cabeça, se vive fazendo um carinho, massagens, vive te mandando recadinhos carinhosos e faz um monte de declarações ao pé do seu ouvido, se mexa! Ela quer tudo de volta, e não comece a perceber quando ela estiver esfriando e se afastando. Ela continua querendo, mas está desistindo ou já até desistiu de você.  Sim, sua performance é ótima e é uma delícia tudo que vocês fazem juntos, mas quando o assunto é sexo, sempre temos o que  descobrir, evoluir. Se você tem um rolinho, um namoro ou uma esposa abra o canal do dialogo e desfrute do melhor pré requisito que existe para essa exploração a dois:  A intimidade!

(O mundo de Débinha)

O Ciclo

Durante essas últimas semanas fiquei bastante preocupada com o processo de fazer a pequena entender que a vovó iria para esse tal de Estados Unidos e que seria uma viagem longa. Depois de pensar bastante, resolvi explicar a ela da mesma forma que expliquei a separação do papai e da mamãe, e lá vieram os fantoches. A historinha se baseava na vovozinha que morava com a netinha e que embarcava em um aviãozinho que voava, voava até chegar num lugar bem distante e encontrar com outros dois netinhos. Chegando lá a saudade apertava então a vovó ligava o computador, e falava com a netinha e elas se divertiam muito e contavam suas aventuras.Muito Bem!  Conforme os dias foram se aproximando fui sendo tomada por uma grande irritação, tristeza e segurei a onda, afinal os adultos não podem se abalar, onde já se viu? Vários dias com olhos marejados me escondia em algum cantinho para deixar a lagrima escorrer, para ficar com raiva e um tanto de medo também da saudade que eu ia ter. Enquanto isso todas as chatices da vovó iam se evidenciando, afinal ela não podia esquecer-se de dar aquela dica, que ela nunca utilizou, mas que se eu usasse... Ah sim! Seria o caminho para felicidade. O que mais irrita nestas horas de partida é o fato de você amar a pessoa como um todo e pensar que vai sentir falta das chatices que você já não suporta mais.  Último dia chegou, e agora era questão de horas e eu já não cabia mais em mim. Choraminguei diversas vezes no dia, precisava falar, precisava chorar, a verdadeira vontade era de dizer: mamãe por favor, não vá! Correria o dia todo, mala por fazer, aquela loucura que só quem conhece a minha mãe vai entender.Escondendo a emoção e sem ter com quem falar, fiquei rodeando-a sem nenhuma vontade de ajudar até a hora da pequena ter que dormir. Eu me abaixei e expliquei que aquela era hora de se despedir, e que a vovó pegaria o avião para um pais longe daqui. A vovó carregou-a para cama, se abraçaram e deram um beijinho. Eu chorei e elas sorriram, disfarcei. Me deitei juntinho da pequena que me abraçou forte, encostou a cabecinha no meu peito e eu comecei a soluçar. - Você tá rindo mamãe? - Estou chorando, filha. - Porque? - Por que a sua vovó vai embora. Ela ainda encostadinha, fez carinho no meu braço e disse: - Não precisa chorar não, mamãe. E eu solucei e ela continuou: - A gente vai conversar com ela pelo skype, ta bom!? Abraçou-me forte e eu comecei a rir. Ela respirou forte e se virou para dormir.  Me senti tão segura, tão boba e tão sortuda! Tudo ao mesmo tempo. Ainda em clima de desabafo encontrei um amigo disposto a ouvir e entre milhares de coisas legais,um trecho me marcou: - O olhar de uma criança tem uma "maturidade" da qual perdemos quando nos tornamos maduros.E a saudade bonita? É um obstáculo que enobrece a gente!

(O Mundo de Débinha)

Recortes

Um dia chuvoso e eles se encontram embaixo do mesmo guarda-chuva, caminham abraçados entre muita gente, muitas gotas, capas e estampas de guarda-chuva.  Incomodo algum,eles sempre andam abraçados, e entre os passos, se beijam , se olham, se cheiram e sentem. Atravessam a rua e poucos passos depois estão em frente ao restaurante. Sobem os degraus, encostam o guarda-chuva, limpam os pés no tapete e procuram uma mesa para dois. Ele faz tudo com muita segurança e ela ainda está prestando atenção nos detalhes, cheiros, disposição das mesas, textura do assoalho... De frente, um pro outro, e as mãos se encontram, os olhos.. Enquanto sorri seus ombros involuntariamente se levantam com a vontade de apertá-lo. O cardápio em suas mãos e ela aceita a sugestão dele e se delicia entre mil sabores desconhecidos. 
É um dia comum de trabalho e após dividirem a trivial, hora do almoço, satisfeitos se despedem.

A chuva caia em toda cidade, e a cada passo um prédio, uma lembrança de um passado tão dela.
E como antes caminha e observava os tantos tipos de gente, os cheiros, barulhos, dela. Sem compromisso explora, conversa, olha, e é tocada por papelões, guaches, fotografias, recortes, cores, letras uma variedade imensa de Sigmar Polke. Inspirada pela atitude continua seu trajeto querendo ver mais daquilo que já conhecia enquanto a chuva que agora já lhe deixava ensopada, intensificando a inigualável sensação de liberdade. Nem ela sabe o por que do seu fascínio em visitar aquele banheiro rosa. Antes dele, os livros e fotos são sempre tão iguais.
Ao subir a escada e caminhar até o mármore rosa, ela é tomada por uma sensação forte de familiaridade e imediatamente pelo mistério da imagem que refletirá no espelho. Desta vez, ela se aproximou e viu uma mulher branca, já sem maquiagem, com os cabelos presos e molhados, com uma jaqueta ensopada e sorriu. Talvez seja a primeira vez que tenha se identificado com a imagem refletida. Sem o peso da vida, das escolhas e de tantos porquês. Passando a mão nos cabelos, se aproximou do espelho e se sentiu bonita. Caminhou para a varanda, e sentiu orgulho da sua história, das suas escolhas, de tudo que havia acreditado, lutado, desistido, conquistado e que apesar de qualquer coisa que possa parecer, tudo tinha sido incrível. Naquele momento ela entendeu por que continuava acreditando na vida, no amor, na felicidade, no sucesso e foi tomada para euforia que a fez descer correndo pelas escadas até chegar na praça Oswaldo Cruz . Mais uma vez sentada embaixo daquelas arvores tranqüilas, enquanto tudo em volta se mexia tão loucamente. Carros, pessoas, bancos, shopping, banca, lojinhas, tudo exatamente do jeito que se lembrava. Havia muita coisa para rever, e ela estava adorando a sensação da chuva, da sola do tênis no asfalto molhado, se levantou e seguiu aproveitando o caminho até parar num café. Mocha não lhe parecia tão bom quanto a decoração, os textinhos sobre o café, grãos, colheita.  Ela ficou maravilhada com a estante das  mil "canecas"para café, olhou uma por uma, deu mais um gole no café, enquanto abria a porta para se encontrar com a chuva. Em frente, Mister Mills, Barnaldo Lucrécia, Empório São Jorge ,o cheiro de suas esfirras. Parou em frente aquele prédio de esquina azul com saudades. Tinha vivido ali grandes cenas de amor, de sofrimento, decepção, loucura, superação e amor e mais amor. Não se arrependia, era uma linda história, e sentiu-se esplendida por tê-la vivido.Não teve vontade de comer seu pão na chapa na padaria da esquina, mas pensou que gostaria de ter lembrado do sebo, antes de ter investido no café famoso.  Dentro da estação, musica e teatro e como se prestasse atenção em tudo a sua volta, podia sentir tudo que se passava por dentro e se sentia feliz.
( O Mundo de Débinha)

Galego

Sangue quente e a madrugada fria atraíram-se poderosamente. Percorria, hoje, o caminho que ontem nos separava. Desejo latente de apenas encaixar o calor dos corpos e dormir mais uma vez entre carinhos.
Cada minuto, agora, mais perto. Atravesso a cidade ainda escura e me encontro no seu abraço.Com pressa avançamos a escadaria enquanto me aperta e suspiramos a alegria. De cansaço, como na música, deitamos  no emaranhado dos nossos braços, sorrimos e dormimos.
Somos despertados, lentamente, pelo sol que, entre folhas, ilumina a janela.
Muito amor e o cheiro sabor do seu café com canela.
Amanhecer seria triste se não fosse igualmente saboroso.

(O Mundo de Débinha)

saberia amar se soubesse sofrer

"E a maneira como sofre é igualmente proporcional a maneira que ama.
E se tratando de um sentimento é preciso sentir. 
Só e acompanhado, respectivamente. 
Por que se todos sofremos sozinhos, amamos em dupla.
Sinta e faça sentir e sempre irá existir."
(O Mundo de Débinha)

Vestida para Dançar

Num fim de tarde, um vestido emprestado
Liberdade vestida para dançar!
Coração guardado no bolso,
-Nem ouse sair para brincar!
São dois passos e uma olhada.
- Ai! aquela camisa branca amassada!

Entre pele, pés e olhos: os ouvidos
- Mas que sacada!

Ela arredia, ele quieto.
- Arrisca! não vai dar em nada!

Entre uma musica e outra, uma clicada.

Debaixo daqueles óculos escuros,
Uma encruzilhada.

O pedido e ela sem jeito
Crianças curiosas,
Nem imaginavam o efeito.

Beijo roubado na esquina
Onde todo mundo passa.
O tiro saiu pela culatra
E o coração é dado, de graça.
(O Mundo de Débinha)

Assim

" O difícil de enfrentar a dor de frente é querer ser tão valente
E assim tão de repente, virar duas doses do amargor.
Quando não se consegue respirar e o coração não quer parar de apertar,
O medo é não resistir, não aguentar, cair e a saída é me cercar.E entre um passo e outro, um gole e outro, uma fisgada
Entre um palavra e uma gargalhada, estão falando comigo e não escuto nada. Entre uma disfarçada e uma rebolada.  Finjo concordar.
Sorrio o desespero de ter me perdido pro lado de dentro e não posso mais encarar."

(O Mundo de Débinha)

M.L.R

Após inédita insônia, a disposição.
Sobre incomum brisa, pedaladas.
Toda mudança se solidifica entre asfalto e o céu azul
Movimento de livre reflexão 
Estrada dentre sonecas, energias, liberdade e muito som.
Centenas de projeções, e o presente.
Múltiplas sensações ambíguas enquanto o corpo faz o que gosta.
Entra em contato.

Sn

"Era branca prateada e altamente cristalina.
Instintivamente revela seu brilho e envolve em seu desejo admirável de envolver.
Agora são um e se torna inadmissível a idéia do abrasivo.
Apesar de não gostar do morno, nele, se torna incontrolavelmente maleável.
E nada, que não fosse cítrico e amargo, poderia corroê-la.
Lentamente seu corpo, sua mente são tomados pelo calor da impotência.
Naquele contato, tornava-se terrivelmente catalisadora do que a destruia.
Inevitável, “grito da lata”, e seus cristais rompidos."
(O Mundo de Débinha)

*Sn - estanho.


Ciranda de Três

Expectativa de querer estar, agradar e viver o dia-a-dia, juntos, entre um jantarzinho meia boca e sorrisos.
Encontrar assim num aconchego de pernas entrelaçadas  e ao o som de uma televisão ligada, a tranqüilidade para poder se dividir entre uma trivial naninha e um cafuné.
Desgustar a presença, dormindo, entre duas respirações.
Acordar um bom dia de café, riso, filme e calmaria. Entre passeios, compras, pingas e saquês; compartilhar com alegria petiscos, aberturas de presentes até que a noite chegue junto com um leitinho quente e o barulhinho do seu banho venha perfumar, acalmar e ninar estes sonhos doces.
Sobre este escuro, um desejo. Passos, silêncio, toques, delicadeza e conforto.
Amanhecer-te com carinho, fazendo montinho e sentir o carinho fluindo sobre o cheiro do café, uvas verdes e o tal de chantilly que rende muitos olhares sapecas e surpresos.
Em meio à preguiça, desenhos e sonecas; a diversão de estórias, "piadas", bagunça e muita risada.
E neste mundo onde, às vezes,é tão difícil admitir sentimentos: a satisfação.
Nessa nossa arte de descobrir o outro.

(O Mundo de Débinha)

Estranho

ESTE É UM TEXTINHO QUE ESCREVI NO AUGE DOS MEUS 16 ANINHOS.
Acabei de achar... kkkk

“É realmente estranho como ele consegue me confundir tanto.
Fazer-me sentir e não sentir a mesma coisa em fração de segundos.
É realmente estranho como me magoa com um olhar,
Faz-me duvidar com outro.
E depois de instantes dirija outro olhar que me dê tanta certeza para acreditar.
É realmente estranho como me faz desistir com um gesto ou atitude
E com um sorriso, e que sorriso lindo, me faz esquecer absolutamente tudo.
É realmente estranho como adquiri o gosto de ficar na cama depois de acordada
Pra vê-lo dormir e ter a inocente sensação de tê-lo mais perto, com coração bem mais aberto.
E vou lhe fazendo confissões em secreto até que por um momento pareço escutar seu pedido
Para que eu fique mais um pouquinho e lhe dê um pouco mais de carinho.
É realmente estranho como viramos um quando nos beijamos
E a forma incontrolada com que nos tocamos e desejamos
Sua respiração parece dizer que dali não quer mais sair,
Mas quando nos soltamos seus olhos não querem olhar os meus.
E se distancia como se não quisesse gostar do que acabamos de sentir.
É realmente estranho como é gostoso ficar abraçadinho sem fazer absolutamente nada
E muitas vezes cair na gargalhada sem motivo algum
E quando, rindo, encontramos nossos olhares
Ele desvia e fica sério me fazendo morrer a desejar por, pelo menos,
Um dia saber o que tanto ele pensa, do que ele tanto foge, o que tanto sente e não sente.
É realmente inacreditável que por mais que falte tudo, passa a não faltar nada
Com qualquer bobagem que ele dê a entender que sinta, diga, faça ou represente.”

Quintal Enluarado

Lua de São Jorge
De Madalena.
Soberana
Vive nesse quintal
Luz natural de sensações
Distintas 
Importantes.
Purifica a cabeça
Ilumina os olhos 
Sossega o coração

(O Mundo de Débinha)