Recortes

Um dia chuvoso e eles se encontram embaixo do mesmo guarda-chuva, caminham abraçados entre muita gente, muitas gotas, capas e estampas de guarda-chuva.  Incomodo algum,eles sempre andam abraçados, e entre os passos, se beijam , se olham, se cheiram e sentem. Atravessam a rua e poucos passos depois estão em frente ao restaurante. Sobem os degraus, encostam o guarda-chuva, limpam os pés no tapete e procuram uma mesa para dois. Ele faz tudo com muita segurança e ela ainda está prestando atenção nos detalhes, cheiros, disposição das mesas, textura do assoalho... De frente, um pro outro, e as mãos se encontram, os olhos.. Enquanto sorri seus ombros involuntariamente se levantam com a vontade de apertá-lo. O cardápio em suas mãos e ela aceita a sugestão dele e se delicia entre mil sabores desconhecidos. 
É um dia comum de trabalho e após dividirem a trivial, hora do almoço, satisfeitos se despedem.

A chuva caia em toda cidade, e a cada passo um prédio, uma lembrança de um passado tão dela.
E como antes caminha e observava os tantos tipos de gente, os cheiros, barulhos, dela. Sem compromisso explora, conversa, olha, e é tocada por papelões, guaches, fotografias, recortes, cores, letras uma variedade imensa de Sigmar Polke. Inspirada pela atitude continua seu trajeto querendo ver mais daquilo que já conhecia enquanto a chuva que agora já lhe deixava ensopada, intensificando a inigualável sensação de liberdade. Nem ela sabe o por que do seu fascínio em visitar aquele banheiro rosa. Antes dele, os livros e fotos são sempre tão iguais.
Ao subir a escada e caminhar até o mármore rosa, ela é tomada por uma sensação forte de familiaridade e imediatamente pelo mistério da imagem que refletirá no espelho. Desta vez, ela se aproximou e viu uma mulher branca, já sem maquiagem, com os cabelos presos e molhados, com uma jaqueta ensopada e sorriu. Talvez seja a primeira vez que tenha se identificado com a imagem refletida. Sem o peso da vida, das escolhas e de tantos porquês. Passando a mão nos cabelos, se aproximou do espelho e se sentiu bonita. Caminhou para a varanda, e sentiu orgulho da sua história, das suas escolhas, de tudo que havia acreditado, lutado, desistido, conquistado e que apesar de qualquer coisa que possa parecer, tudo tinha sido incrível. Naquele momento ela entendeu por que continuava acreditando na vida, no amor, na felicidade, no sucesso e foi tomada para euforia que a fez descer correndo pelas escadas até chegar na praça Oswaldo Cruz . Mais uma vez sentada embaixo daquelas arvores tranqüilas, enquanto tudo em volta se mexia tão loucamente. Carros, pessoas, bancos, shopping, banca, lojinhas, tudo exatamente do jeito que se lembrava. Havia muita coisa para rever, e ela estava adorando a sensação da chuva, da sola do tênis no asfalto molhado, se levantou e seguiu aproveitando o caminho até parar num café. Mocha não lhe parecia tão bom quanto a decoração, os textinhos sobre o café, grãos, colheita.  Ela ficou maravilhada com a estante das  mil "canecas"para café, olhou uma por uma, deu mais um gole no café, enquanto abria a porta para se encontrar com a chuva. Em frente, Mister Mills, Barnaldo Lucrécia, Empório São Jorge ,o cheiro de suas esfirras. Parou em frente aquele prédio de esquina azul com saudades. Tinha vivido ali grandes cenas de amor, de sofrimento, decepção, loucura, superação e amor e mais amor. Não se arrependia, era uma linda história, e sentiu-se esplendida por tê-la vivido.Não teve vontade de comer seu pão na chapa na padaria da esquina, mas pensou que gostaria de ter lembrado do sebo, antes de ter investido no café famoso.  Dentro da estação, musica e teatro e como se prestasse atenção em tudo a sua volta, podia sentir tudo que se passava por dentro e se sentia feliz.
( O Mundo de Débinha)

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